segunda-feira, 5 de maio de 2014

KAIRÓS: O TEMPO NOSSO DE CADA DIA

Diário remanso: encontros, acontecimentos, leituras... Intuições.
O clarão de uma anedota. Uma angústia, uma esperança.
Não à crônica; sua decantação. Vinho descansado.
Ou o instante de uma borboleta. Ou um latido.
Ou Deus passando como uma ventania, como uma brisa.
Nossa história em suas horas: o Kairós que alguém detecta.
O círculo concêntrico do remanso.
E o borbulhar do manancial.
(Pedro Casaldáliga)

Um dia desses, quando o coração parece estar mais propenso a entender algumas verdades que passam despercebidas aos sentidos, ouvi um comentário que ficou ressoando no coração como uma dúvida que não pode ser respondida imediatamente e como poesia que precisa ser apenas ruminada, decantada. Ouvia que, ultimamente, o tempo tem passado mais rápido que o normal, que os anos e meses parecem estar mais curtos... E, de fato, depois de abrir um bate papo sobre o assunto na sala de aula, comentávamos e compartilhava-mos essa mesma impressão. O tempo está mais rápido, se tornou relativo, parece ter perdido seu caráter absoluto.


Porém, no silêncio daqueles mistérios que só são possíveis na solidão, fiquei me perguntando: será mesmo que é o tempo que está diminuindo ou somos nós que estamos ficando maiores, com o coração maior, com a mente maior? Aliás, mais cheios de tudo. Antes, quando era mais criança e, por isso mesmo, dava mais atenção ao essencial, lembro que conseguia parar mais tempo para fazer certas coisas simples... coisas que parecem ter deixado de ser simples. Hoje, não consigo mais sentar, uma hora se quer do nosso dia, para uma boa conversa, ou para simplesmente contemplar aquelas coisas simples e lindas – e por isso mesmo essenciais – que passam despercebidas como um suspiro de saudade... Hoje não consigo mais escutar Deus como quando era criança, ou deitar em seu colo materno-paterno para simplesmente lembrar quem sou, de onde vim e para onde vou...


Há pouco tempo atrás nosso coração e nossa mente não precisava de assimilar tantas coisas e tanta informação ao mesmo tempo. Fazíamos poucas coisas, mas sentíamos que o pouco que fazíamos deveria ser bem feito. Hoje, tudo é colocado diante da gente ao mesmo tempo, tudo precisa ser feito no mínimo de tempo possível e o máximo possível. Será que ao aprender a quantificar as coisas não esquecemos também de qualificá-las? Ou mais sério ainda: será que, nessa mesma sociedade, não aprendemos a agir com as pessoas da mesma forma que agimos com as coisas? Estamos coisificando as pessoas? Estamos nos tornando mais cegos, surdos e mudos, pois perdemos a capacidade de enxergar o essencial, de ouvir o essencial, de falar o essencial... Perdemos a noção do tempo.


Sim, o tempo diminuiu. Aquele tempo que aprendemos na escola, o linear, o histórico, aquele sucessivo punhados de fatos que acumulamos na memória. Esqueceram de nos ensinar que o tempo é, sobretudo, cíclico, Kairós, tempo favorável, tempo de graça... Instante presente, aquele onde o essencial da vida se escancara diante de nós, ora como mistério, ora como graça. Mais cegos, mais surdos e mais mudos, as coisas passam mais rápido, assim como os anos, os meses, os dias e, talvez, assim como as pessoas... Porém, quando assumimos a grandiosidade do mistério que nos rodeia como tempo favorável e tempo de graça, onde o presente infinito e eterno é o único tempo que vale a pena de se viver, os anos, meses, dias e as pessoas não passam, simplesmente ficam... São eternizadas, na memória e no coração.

José Wilson Correa Garcia, em algum tempo desses...
Leia mais...

domingo, 27 de abril de 2014

NÓS...

Como seria tão fácil não ser humano, meu Deus!
Não ter que sentir a dor da distância e da saudade.
Como seria fácil amar sem limites,
pensar que poderíamos fazer do tempo e do espaço
a possibilidade de ser mais intensos e imortais.
Não ter que buscar palavras
impossíveis de expressar o essencial
sem ao menos, submeter-se ao medo,
à vergonha...
Como seria fácil ser fraco
para sentir-se dentro de tudo.
Não ter que se esconder – do confronto –
para não dizer que se é vulnerável...

Devo estar – há muito tempo – longe do Mar.
Sinto falta do seu cheiro,
de pisar suas ondas que,
eternamente, vão e vem...
Saudades do desenho – imagem – da lua
que, na noite, dança extasiada por suas águas...
Ali, onde a liberdade parece consumir o mundo,
sem que ninguém nada perceba...
Ali onde a verdade de cada coisa
parece se escancarar...

Pensar em ti, ó Mar,
é reconhecer que tú precisas de mim...
é reconhecer que eu preciso de ti...
E nessa humana dependência
dou razão de ser à tuas ondas.
E elas, a meus pés que caminham descalços
entre tantas verdades sentidas...

Não posso renunciar a essa dependência
que me faz assemelhar-me a ti.
Não posso desejar o que não é parte de mim,
sob o perigo de perder-me
no esquecimento da tua solidão...

Preciso voltar a ser criança
para desejar sempre pisar
o infinito desconhecido desta vida...
Sem medos,
Sem vergonhas,
Sem facilidades...
Preciso renunciar ao que me tornei
para ser apenas o que sou...



José Wilson Correa Garcia
Belo horizonte. Primeira noite de Outubro, 2006.
Leia mais...

segunda-feira, 21 de abril de 2014

"LIBERDADE"

O feriado de Tira Dentes, comemorado no dia 21 de Abril, ainda está longe de ser uma celebração da liberdade sobre o processo histórico colonizador que, ainda hoje, estende suas raízes sobre o Brasil... De qualquer forma, compartilho essa beleza de Cecília Meireles. Trata-se de seu poema “Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência”, retirado de sua obra O Romanceiro da Inconfidência.


Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
brilham fardas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio,
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e das colônias inglesas.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
 "Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?"
(Antiguidades de Nimes
em Vila Rica suspensas!
Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade - essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)
E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.
Leia mais...

O SILÊNCIO DO AMOR

"Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar." Wittgenstein.

Ultimamente tenho pensado muito no silêncio, talvez por tê-lo experimentado como algo constitutivo da minha personalidade ao longo da vida. Hoje, quando mais uma vez pensava nele, percebi que há silêncios que alimentam uma solidão sem sentido, vazia, opressora... e há silêncios que possibilitam uma solidão necessária e construtiva, exatamente porque nos abre um horizonte de sentido e amor... um silêncio libertador. A raiz desse último, na minha história, encontrei em minha família...

Em casa nunca fomos de falar de nossas intimidadas pessoais. O que parecia ser normal entre amigos, dentro da família era sempre tabu. Isso, porém, nos ensinou a amar de outras formas, através de nossos silêncios, daquilo que não era falado, mas era vivido e sentido...

Lembro da primeira grande decepção que tive na minha vida de jovem/adolescente (que agora não convém detalhar) e da dor que ela me causou. Estava recente e ainda não tinha aprendido a curar minhas dores com o choro (o choro também era um tabu em casa). Numa noite, quando não conseguia dormir porque o choro sufocado também sufocava a necessidade de falar, levantei da cama e fui ao quarto de minhas irmãs. Virgínia, a mais velha, estava dormindo. Quis acordá-la, dizer o que estava sentindo e como estava doendo e me fazendo sofrer aquela situação, mas não o fiz. Ao contrário, sentei ao lado da sua cama e ali simplesmente chorei. Foi o diálogo mais profundo que tive com ela (e tenho certeza que até hoje ela sequer sabe disso) porque no seu silêncio de sono me senti acolhido, entendido e amado. Ali ela me dizia tudo o que precisava ouvir, mesmo sem dizer uma só palavra, mas sendo o que simplesmente era: minha irmã, minha família.

Sábado de manhã era especialmente um terror. Lembro que sempre desejava ficar na cama até mais tarde, eu e meu irmão, mas mamãe e minhas irmãs sempre inventavam de arrumar a casa justamente o mais cedo possível naquele dia, início do final de semana. O piso de casa ainda era de madeira e as batidas da vassoura no rodapé eram terrivelmente perturbadoras, e acho que elas sabiam disso e usavam como método para nos acordar. Porém, aquela infernal seção de tortura do meu sono era amenizada pelo silêncio de mamãe, que nos seus afazeres ficava assoviando canções religiosas. Depois de algum tempo eu entendi que era uma das formas dela de nos educar na fé...

Os domingos em casa (não sei porque, mas especialmente os domingos) eram repletos de silêncios de simplicidade e felicidade. No almoço o cheiro do alho refogado na panela, sacralmente preparada por mamãe, falava de amor e cuidado. À noite, todos sentados ao redor da televisão e aquela vinheta terrível do programa anunciando a segunda feira, sentíamo-nos de muitas formas silenciosas mais próximos, mais unidos, mais família. Cada um de nós filhos, ao seu tempo, ia dormir dando boa noite a papai e mamãe como num ritual sagrado. E a última lembrança que tinha do domingo, já deitado na cama sonolento, era do beijo silencioso de meus pais...

José Wilson Correa Garcia
Leia mais...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

TOLERÂNCIA: sustentando as diferenças


"Na minha escola tem uma menina que eu não tolero ela de jeito nenhum. Ela é chata, feia, pobre... Quero é distância dela!"

Eu ouvi isso de "Diferença", uma aluna. Ela estava falando de "Tolerância", uma colega sua de escola, também minha aluna. Falar algo desse tipo já é muito sério. Mais sério ainda é falar algo desse tipo com as próprias ações. Sim, "Diferença" não estava falando literalmente, mas estava falando com suas práticas e ações dentro da escola.


"Tolerância" é uma jovem linda, inteligente, faladeira. Acolhedora com os colegas e professores, sempre está disponível a tudo e a todos. Na sala de aula ela sempre está perguntando, questionando, inquieta... E suas posições são coerentes com sua simplicidade de vida e a simplicidade de vida da sua família. Ela me ajuda muito com isso, é lindo de se ver! Lembro que no dia da Consciência Negra pedimos a "Tolerância" para fazer uma dança. Ela, com sua negritude e seus cabelos crespos lindos, dançou que era uma beleza. Enfim, "Tolerância" tem tudo o que a maioria de seus colegas não tem na escola e isso se torna um estigma sem sentido para ela.


Uma vez no recreio, eu estava em uma roda conversando e brincando com um grupinho de alunos. "Tolerância" chegou, me deu um abraço apertado, ficou do meu lado, participando da conversa, brincando, sorrindo. Aos poucos, os outros foram silenciando, fechando a cara, e simplesmente saindo de mansinho, num silêncio desconcertante e opressor. Não sei se "Tolerância" percebeu, mas eu percebi... Fiquei me perguntando: como uma pessoa com tantas qualidades e belezas pode ser rejeitada dessa forma? Quem não daria tudo pela presença agradabilíssima da "Tolerância"? Ela me ajudou a perceber que "Diferença" estava influenciando negativamente os outros colegas e que casos como aquele se repetiam dia a dia na escola, como se fosse absurdamente anormal ser diferente.




"Tolerância" também era inteligente. Lembro que um dia ela me disse que a origem do seu nome vinha da palavra latina tolerare e significava duas coisas: suportar e sustentar. O primeiro significado ela não gostava muito e eu concordava com ela. Suportar alguma coisa ou alguém parece soar estranhamente opressor. Se alguém suporta algo ou alguém é porque o faz como peso, mas "Tolerância" não conseguia olhar para as pessoas como se fossem um peso ou fardo. Diferentemente ela entendia que o significado "sustentar" parecia mais apropriado para sua vida, pois sustentar não significa o mesmo que suportar. Sustentar quer dizer ser base, ser alicerce, ser o fundamento de algo ou de alguém. Uma construção sem fundamento desmorona no primeiro vendaval, dizia-me "Tolerância". E isso tudo me pareceu muito verdadeiro e cheio de sentido...


No dia seguinte, na sala de aula, discutíamos sobre a importância da bíblia como Palavra de Deus na vida de um cristão. Sim, pois a bíblia pode ser outras coisas não muito legais, além de Palavra de Deus... As opiniões eram diversas e "Diferença", tomando a palavra, quis afirmar e impor sua opinião como única e exclusivamente verdadeira. A maior parte da turma silenciou, talvez com medo ou vergonha, mas "Tolerância", tomando a palavra, leu um trecho do Evangelho de Mateus (Mt 7, 24-25) que diz assim: "Portanto, quem ouve essas minhas palavras e as põe em prática, é como o homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, mas a casa não caiu, porque fora construída sobre a rocha". E conclui dizendo que a "Diferença", mesmo sendo motivo de dor e sofrimento para ela, ensinou que para ser "Tolerância" é preciso ser e ter fundamento para sustentar que a "Diferença" não deve ser motivo de divisões e pré-conceitos entre a gente. A turma silenciou e desde aquele dia "Diferença" mudou, assim como eu...


Se eu tenho fundamento e sustento no que sou e creio, então eu consigo olhar para as nossas diferenças como algo que me enriquece e me faz crescer, me faz ser melhor do que sou, ou seja, sou tolerante. Caso contrário, a intolerância revela minha falta de fundamento e, por isso mesmo, minha falta de conteúdo, pois não consigo olhar para as pessoas para além de suas diferenças em relação a mim... É nesse sentido que a tolerância deve sustentar as diferenças, não suportá-las... É quando a Tolerância se torna um valor...



José Wilson Correa Garcia
Professor de Ensino Religioso, Filosofia e Sociologia.
Leia mais...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

HOMOSSEXUALIDADE EM DEBATE: a dialética moral.



Recentemente tivemos uma palestra em nossa escola sobre o tema da homosexualidade, promovida pela Associação Russana da Diversidade Humana e pela Secretaria Estadual de Políticas públicas para o público LGBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais). A palestra aconteceu por ocasião da realização da quarta parada regional pela diversidade humana. Evidentemente, é um tema e um evento que causam muitas reações e debates polêmicos nos diversos espaços da sociedade. Em todo lugar é assim, de um lado o público LGBTT e simpatizantes das causas trazidas pelo movimento e do outro lado os opositores, defensores de uma moral que vê a homossexualidade como um erro ou um mal. Essa oposição dialética existe porque, aparentemente, há sempre no meio das polêmicas dois discursos opostos que tentam se afirmar como verdadeiros. É preciso, no entanto, entender e separar bem esses dois discursos implícitos nas polêmicas que giram em torno do tema da homossexualidade, para, a partir daí, perceber que são duas formas de compreensão e discursos que não podem e não devem ser "misturados"...


Fundamentalmente, diria que há um discurso CIVIL e outro MORAL. O discurso moral nos faz olhar para a homossexualidade do ponto de vista do certo ou do errado. Já o discurso civil nos impele a olhar o tema a partir do ponto de vista dos direitos. Como eles se misturam e se contrapõem a ponto de gerar tantas divisões e, em alguns casos, a ponto de causar tantas agressões? Aprofundemos, como exemplo, a polêmica questão do, erroneamente chamado, "casamento gay"...

O ser humano é naturalmente lançado para a relação interpessoal, seja lá de que forma essa relação se manifeste. Aristóteles já dizia que o homem (antropos) é naturalmente político, naturalmente social e sociável. Historicamente, a necessidade de sociabilidade foi sendo cultural e diversamente construída. E não foi diferente no âmbito da cultura ocidental em que vivemos e habitamos, profundamente marcada pelo cristianismo e, consequentemente, por seu ethos (conjunto de valores morais). É por isso que a compreensão de união construída na cultura ocidental está fundamentada sob o conceito de "casamento", elaborado pela moral judaico cristã. E enquanto instituição moral judaico cristã o casamento é uma expressão de união fundamentalmente heterossexual. Exatamente por isso, particularmente, penso que o chamado "casamento gay" é incoerente e desrespeitoso com os próprios homossexuais...

Porém, há um outro aspecto da expressão humana de união que, na proposta desta reflexão, parece apontar para além da compreensão moral, que é o de união civil. Nesta, qualquer cidadão ou cidadã ao se unir com um outro ou outra garante para si determinados direitos civis, como a partilha de bens, entre outros... E é a partir desta compreensão civil de união que o público homossexual reivindica para si o direito de união. Porém, como foi dito, essa dialética compreensão nem sempre é tão claramente distinta, principalmente porque a própria compreensão de direito civil está fundamentada na compreensão de direito natural, onde o ser humano é considerado natural e biologicamente homem e mulher, e o debate se aprofunda mais, porque toca na própria essência da compreensão do conceito de "humano"...

O que é ser "humano"? É possível uma resposta que não reduza o ser humano a apenas um aspecto, seja ele biológico, social,  moral ou religioso? Mais ainda: é possível uma resposta que não implique confusamente os diversos aspectos? Acreditamos que sim, principalmente se reconhecermos que cada aspecto tem seu limite, exatamente porque o que parece definir essencialmente o ser humano é mais do que o que o reduz ao puramente biológico, social, moral ou religioso... Porque, no fim das contas, somos mais do que aquilo que tenta nos definir.

Voltemos a questão da homossexualidade. Para além das definições biológica, social, religiosa e moralmente construídas a pessoa com orientação homossexual sempre estará para além daquilo que tente a definir, exatamente porque, antes de ser homossexual, ela é humana. A afirmação moral religiosa que está por trás da argumentação de que a homossexualidade é biologicamente errada e incoerente, é tanto limitada quanto a afirmação de que a homossexualidade é natural ou biologicamente adquirida. As duas concepções tem seus limites (porque são reducionistas) e esses devem ser reconhecidos quando se dispõe a refletir, dialogar e debater sobre o assunto... Foi o que parece ter feito o Papa Francisco, líder espiritual da maior instituição religiosa/moral do mundo, ao afirmar que a Igreja não deve "interferir espiritualmente" na vida das pessoas de orientação homossexual. Ele reconheceu que, apesar de moralmente contra, a Igreja deve assumir seu limite e, assumindo seu limite, ser o que define sua essência: testemunhar e anunciar o amor a toda pessoa humana.

Particularmente, como cristão, é exatamente isso que penso e nisso que acredito. Tenho muitos amigos e conhecidos de orientação homossexual. Penso que não preciso concordar com suas orientações para amá-los. O que posso fazer é reconhecer meu limite em compreender profundamente as razões das diversas manifestações de sua humanidade. E, mesmo assim... e, talvez por isso mesmo, acolher o misterioso sentido da existência da vida humana que é maior do que nós mesmos.


José Wilson Correa Garcia é blogueiro e educador.
Leia mais...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A ESPERANÇA POLÍTICA DO ADVENTO

Não há maior incoerência entre os cristãos de hoje do que pertencer a uma religião que não o faz olhar para as injustiças e desigualdades da sociedade em que se vive. Mais ainda, é anacrônico pensar que posso viver uma experiência de fé tão pessoal sem me comprometer com a construção de um mundo melhor, de um país melhor, de uma cidade melhor, de um bairro melhor, de uma família melhor... Exatamente por isso, a fé é uma opção Política, no sentido verdadeiramente grego (penso que não preciso esclarecer seu sentido verdadeiro, suponho que o bom entendedor já o consiga fazê-lo, caso contrário não precisa continuar lendo). E mesmo sem conhecer os gregos, Jesus de Nazaré, seu projeto de vida e sua missão partem de uma experiência fundamentalmente de fé-comprometida e, por isso mesmo, Política.
Há muitas inspirações bíblicas que afirmam isso, entre elas a pergunta desconcertante presente na Carta de Tiago: “...se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, do que adianta isso?” A vida do próprio Jesus pode nos ajudar a esclarecer o sentido verdadeiro daquilo que constantemente é chamado e narrado pelos textos bíblicos como “obras”. Sim, Jesus poderia somente curar feridas e doenças, somente oferecer acolhida a quem não tinha nada, poderia somente distribuir bens aos muitos pobres e miseráveis de seu tempo, mas ele foi além disso... Suas obras são marcadas por uma opção Política. O leproso curado é convidado a se apresentar àquelas instituições e àqueles que o afirmavam como socialmente impuro. À “pecadora” perdoada é devolvida a dignidade como mulher, esquecida pela cultura machista e pré-conceituosa. E tantos outros exemplos...
Para Jesus cada situação de “pecado”, dor e sofrimento escondiam uma raiz muito mais profunda: a injusta e a desigualdade. Raiz que não era possível ser extirpada definitivamente somente com a boa vontade de “obras” paliativas, ou como diria hoje, de “obras” assistencialistas. De que adiantaria perdoar a “pecadora” sem denunciar o falso moralismo religioso e social que gera e multiplica o verdadeiro pecado no mundo? De que adiantaria dar esmola sem lutar por uma sociedade onde não houvesse necessidade de se pedir para viver. É nesse sentido que uma religião, uma fé e uma experiência de Deus que não me torna politicamente comprometido, é morta, vazia e se converte em adereço, em enfeite. Por isso, Jesus foi a chegada de um novo tempo marcado pela esperança, construtora da Justiça e da Igualdade, contra toda injustiça e desigualdade política (social e religiosa). Jesus foi uma novidade, um adventus, palavra latina que significa “chegada”, “chegar a”...
O ano do calendário litúrgico cristão começa com o Tempo do Advento, exatamente as quatro semanas (representadas na simbologia das quatro velas) que antecedem o período natalino. Para muitos é um tempo de alegria assistencialista, seja por causa dos presentes na árvore de natal, seja por causa da presença e imagem da criancinha branca de olhos azuis no presépio. Para poucos, o Advento é um momento para se renovar a esperança política... por que, mesmo contra toda desesperança (no mundo, no Brasil, na cidade, no bairro e na família) Deus, ainda, insiste em revelar seu filho como fonte e anúncio da Justiça e da Igualdade, que supõe denúncia contra toda injustiça e desigualdade...

José Wilson Correa Garcia, blogueiro e educador.
Leia mais...

sábado, 23 de novembro de 2013

EU MAIOR

Dentro de cada um de nós se encontra, mais ou menos escondido, um desejo de infinito, um desejo de compreensão daquilo que nos parece estar para além da banalidade e superficialidade de tudo. Há momentos em que experimentamos algo que parece nos levar para além. É quando sentimos que as amarras que nos prendem a esse mundo contingente se desprendem e o mistério se escancara nos jogando para uma busca irresistível e inevitável de algo, seja a felicidade, seja a transcendência, seja a justiça, seja a verdade... Encontramos os meios, uns na Arte, outros na Filosofia, outros na Ciência e outros ainda na Religião...
No mundo em que nós vivemos hoje, nunca foi tão propício a busca pelo infinito de sentido, há muitas mensagens, há muitas propostas, há muitos caminhos, há muitas verdades... Mas qual é a certa?  Qual é a verdadeira? Todos e, ao mesmo tempo, nenhum... E isso pode parece um pensamento relativista, mas não é. Todos porque cada uma tenta oferecer, mais ou menos e da sua forma, as respostas necessárias. Nenhum porque apesar da tentativa, no fim das contas, estaremos sempre a mercê de um anseio que não pode ser preenchido com qualquer resposta que achemos aqui... Não constitui isso a suprema angústia do homem/mulher modernos?! Em todo caso, podemos conhecer melhor as muitas opções, os muitos pontos de vistas, as muitas verdades...

“EU MAIOR” é um filme longa metragem, produzido em formato de documentário, que pode ajudar, pois traz uma reflexão atual e contemporânea sobre autoconhecimento e busca da felicidade, através de entrevistas com personagens que são expoentes de diferentes áreas, incluindo líderes espirituais (como a Monja Coen e o Teólogo Leonardo Boof), intelectuais (como Rubem Alves), artistas (como a Letícia Sabatella) e esportistas (como Waldemar Niclevicz, primeiro brasileiro a escalar o Monte Everest). Com perfis bem distintos, os entrevistados têm em comum a disposição de compartilhar perguntas, respostas, e experiências de vida que ampliaram suas percepções de si e do mundo. Vale a pena ser assistido, vale a pena ser experimentado...

Leia mais...